O próximo, por favor...


Só para não esquecer...

Eu, como a maioria dos brasileiros, tenho a memória curta, principalmente para a política. Nem o segundo turno da eleição chegou e eu já estou esquecendo em quem eu votei no primeiro turono. Então vou deixar minhas escolhas aqui postadas, até para saber se minhas escolhas foram boas ou não, e poder cobrar ou elogiar feitos dos meus candidatos.

Enfim:

Deputado estadual: DRª Zeilda Alves (não eleita)
Governador: Paulo Souto (não eleito)*
Deputado federal: Lídice da Mata
Senador: João Durval (eleito)
Presidente: Lula (provavelmente será eleito)

*: Por que eu votei em Paulo Souto? Eu pensei que ele ia ganhar de qualquer maneira, aí votei pra não ter segundo turno, já que eu sou mesário. Diabo do Alckmin chegou e acabou com minha felicidade.

Pra vocês verem como o brasileiro joga o voto no lixo, pessoal. Té mais.



Escrito por Savio às 17h27
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Devaneios na estrada.

Olhando para fora, pela janela, e vejo a paisagem passar. Passam bois, passam árvores, passam casas; passa tudo, passamos nós.
Olhando para dentro do ônibus, não posso deixar de reparar nas mais interessantes figuras que viajam comigo. Algumas são só figuras, outras têm nomes. Muitos desses nomes têm histórias, mas só algumas eu conheço.
Olhando para dentro de mim, não encontro o turbilhão de desejos e emoções que os outros deixam transparecer. Talvez eu precise morar num lugar mais quente. Minha casca é dura assim mesmo. E opaca, nem sequer fosca, só opaca. Qual mascara estarei usando hoje?

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O interior do Brasil é todo igual, ou pelo menos todos os lugares onde andei. Mato, mato, mato, boi, mato, mato, casa, mato, mato, mato, um caminhão na direção oposta. O sol castiga e embeleza tudo, o verde querendo brilhar. Será que a vida é esta mesma ilusão de andar, andar e não sair do lugar?

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Ah sim, falhei. Falhamos nós, falharam todos. E tudo continua como está, os inocentes comendo bolo e guaraná, nossa versão moderna do pão e circo. Parabéns e feliz aniversário, idiotas.

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E os hipócritas, como esquecer deles? (pausa: olha, flores violetas no meio do mato!!) Odeio os idiotas, mas agora acredito odiar os hipócritas ainda mais. Entretanto, eu até gosto de alguns deles, que estranho. Como separar uma pessoa daquilo que ela faz?

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Paramos, umas moscas vieram voar ao redor do ônibus, ver se conseguiam sugar algo. Provavelmente o pessoal esqueceu-se do repelente. Tudo bem, fecham-se as janelas, mas os parasitos continuam lá. Andamos e as moscas ficaram para trás, refrigerantes e bijuterias nas mãos.

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(Dormi uma parte da tarde, aquela dormida de ônibus. A partir de agora, acho que o texto vai ser mais alegre)

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Chegamos na Bahia, graças a Deus, buracos!! Postos com comida boa e barata, até mesmo um ventinho frio (estamos passando por conquista). Pessoas discutem se e como vão faltar uma prova... e os buracos, oh os buracos (bora baea!!!)

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Azuis, azuis e preto, com uma pitada de amarelo em degradê. Agora tudo é preto. As pessoas são azuis ou verdes, de acordo com a luz do seu celular. As pessoas, entretanto, riem e conversam. Talvez a luz do sol estivesse ofuscando a luz interior das pessoas e... ou pode ser só calor e sono. É, foi só calor e sono.

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Engraçado como os velhos assuntos valtam a tona quanto mais perto as pessoas chegam de casa. Parece que nossas vidas tem um raio de alcançe, que vai ficando mais intenso quanto mais nos aproximamos do nosso cotidiano. Benditas sejam as viagens, pois eu não preciso ser eu mesmo por completo. Bem mais divertido.

Escrito por Savio às 19h54
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Hipermetropia

A coisa mais fácil do mundo é decepcionar alguém. Pode-se agir contra a expectativa do outro, pode-se simplesmente não agir e mesmo assim desapontá-lo e, mesmo agindo de acordo com o que o outro espera, se as maneiras ou intenções forem "erradas", com certeza o desapontamento virá. E quanto mais perto estamos de alguém, mais fácil fica de desapontarmos essa pessoa. Talvez seja a natureza ambiciosa do homem. Sempre queremos algo a mais, ter é de muito menor importância do que conseguir. Por isso existem os compradores compulsivos, que vivem para atingir esse êxtase efêmero e sublime, destruindo tudo e todos em sua volta no processo. O jardim do vizinho sempre é mais verde que o nosso.

E como estamos acostumados a forçar os olhos para ver o que está longe, o que é dos outros, terminamos tendo algo como uma hipermetropia relacional: aquilo que está perto de nós perde o foco, não vemos mais seus detalhes e terminamos por não lhe dar importância. E assim vamos seguindo, tropeçando nos outros para tentar alcançar aqueles que, de longe, parecem ser a opção claramente melhor. É muito triste por óculos e perceber em quem tropeçamos e as feridas que deixamos nos outros e que fizemos a nós mesmos.

Não pedirei desculpas. Palavras não podem curar feridas, não as que importam. Assim como as de carne e osso, o que podemos fazer é estar ao lado, cuidando do "nosso paciente" - paciente conosco - ajudando sua ferida sarar. Suas cicatrizes, mais que as nossas, servirão de lembrete para, antes de tornar as visões que temos em realidade, olharmos para nossos pés e ver o caminho que trilhamos. Saber conseguir é tão importante quanto a a conquista em si.


Esse texto não é dedicado à você que lê. Não pergunte a quem ele é.
Este é um espelho para que possa olhar as minhas próprias feridas.

Prefiro ser cego a ser surdo. 



Escrito por Savio às 09h42
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Inércia

Faz um bom tempo que eu não entro aqui pra escrever nada. Escrever agora parece arrastar grilhões imensos, um súplicio (tipo usar aqueles "alongadores" de cílios). Mas isso é justíficavel pelas leis da física, afinal a força inicial para vencer o atrito é maior que aquela necessária para manter-se em movimento. Maldito Newton e suas leis, hahaha!!

Sério, como a maioria que lê isso sabe quem eu sou não adianta ficar fazendo rodeios sobre os porquês da minha parada: faculdade comendo no centro. Apesar disso, to tentando voltar a fazer algo mais interessante da minha vida que ficar gravando números, índices e se o ácido aracdônico tem 18 ou 20 carbonos. Pensar é uma boa, por exemplo. Eu lembro que eu costumava pensar mil coisas diferentes quando eu era um mísero pedestre e dependia da sorte para poder sentar num banco do buzu e deixar a cabeça viajar. Desligar, sabe? Acho que preciso voltar a desligar de vez em quando, faz bem à sanidade mental. Hoje, com carro, som, televisão, computador, estudo, todas essas "facilidades" do mundo moderno, que supostamente me fariam ter mais tempo para pensar, me surpreendo por me ver tão pouco crítico diante do mundo que me cerca. E quando sou crítico, são opiniões rasas, sem profundidade de qualquer espécie. Acredito que, com tantos "inputs" de informação, não sobra espaço para os pensamentos saírem. A pressão externa é maior que a interna. E lá vamos nós de novo: maldito Boyle.

Isso me faz pensar (agora sim!); se a nossa juventude está tendo acesso cada vez maior à todas essas supostas ferramentas, quer dizer que cada nova geração pensa menos que a outra? A necessidade é realmente a mãe da criação? Então, como estamos evoluindo? Melhor: estamos evoluindo? Me dá uma certa inquietação saber que, pelo menos através do que os mais velhos falam, existia tempo para fazer dez mil coisas diferentes antigamente, entre elas aquelas de uma vida normal: namorar, discutir, divertir-se, estudar. Agora, temos tanta informação para lidar que ela parece estar comprimindo as outras partes da vida. E conhecimento por si só é morto.

(Minha vergonha na cara me diz para não tentar dar uma solução para esse problema, porque senão isso vira uma redação de segundo grau, e com isso nem 5 eu tiro. Pelo menos fica a mensagem.)

De qualquer maneira, sinto saudades do buzu, apesar de tudo. Eu conseguia pensar em milhares de coisas diferentes e misturar tudo, o que hoje não consigo nem a pau. Acho que preciso de um substituto mental pro buzu, pq num quero abdicar do meu carrinho querido, heheheeh!!! Mas desviar da maré, por menos que seja, é realmente importante. É se tornar individual, não apenas um indivíduo.

Bem, acho que o primeiro esforço eu já fiz. Apesar de ser curtinho, o texto deu um trabalho da porra. Tomara que a próxima besteira num demore 1 ano pra sair.

Escrito por Savio às 20h41
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Bem, pra matar o tempo de vocês e me eximir um pouco da culpa de não postar nada, um texto que eu fiz tem um tempo.

Sexta-feira, 26 de Dezembro

 

As luzes invadem o quarto; as estantes, cheias de livros, revistas e fotos com os amigos e namorada, adquirem uma coloração amarelada. São cinco e quinze e, apesar de ter ido à festa da família e saído com Cari – Carine, mas, como todo casal de namorados, nomes inteiros não fazem parte do vocabulário – não se sentia com sono ou cansado. Os olhos mergulhados no teto, como se pudessem ver através do concreto e das telhas o céu que se apresentava: anil, limpo: um “céu de brigadeiro”.

Levantou-se e foi à janela. A brisa ainda trazia o frio da noite, e a rua de asfalto estendia-se ao infinito. Desceu, saiu. A rua, não, o mundo parecia ter virado um domingo de cidade do interior: nenhuma alma viva, nem um grilo ou mosquito. Isso – riu-se – é porque nem as moscas querem morar aqui. Olhou novamente a rua. Não era extremamente pobre ou estupidamente rica, mas era cheia de muros e grades. Realmente, nunca tinha notado no tamanho e quantidade de grades.

-   É o medo – pensou. O medo de receber uma “visita” inesperada, o medo que o fazia andar apressadamente toda vez que saia de casa. Mas será que era só isso? Só a violência? Não, tinha medo de tudo, todos têm medo de tudo. Lembrou-se de que toda vez que encontra um negro mal vestido tem medo de que ele saque um caco de vidro e o assalte. Recrimina-se cada vez que pensa isso, é verdade, mas não consegue parar de fazê-lo. Culpa do estado de tensão permanente que permeia a vida de hoje. Todo mundo tem medo de mais uma guerra, de um maluco derrubando mais um prédio, de perder o emprego... estava na faculdade, mas, e depois? Tinha medo.

O homem, apesar de toda tecnologia e conhecimento, que deveriam ajudá-lo a explorar, descobrir, juntar, compartilhar, tem se fechado cada vez mais. Pessoas fechadas estão sempre com medo e imprimem nos outros a sensação de que há o que se temer. Será que isso não vai ter fim?

Então percebeu que não estava mais na porta de casa. Outra rua, também infinda, fazia um cruzamento. Ainda, nenhuma voz ou canto de pássaro. Já estava no meio da rua quando percebeu uma planta, ali, no chão. Chegou mais perto, era uma flor. Sorriu. Ela tinha furado o asfalto, a sujeira, o calor. Estava lá, lutando. Pensou então que a vida é uma poesia, que são por coisas assim que não se deve deixar vencer. Não se pode ter medo do medo. É a coragem que move o mundo, e eu sou jovem, tenho de continuar lutando. Se não eu, quem? Os velhos, as crianças?

- É isso.

 Olhou mais uma vez a planta, a rua o céu. Estava mais azul, mais vivo. Mais feliz, assim como ele. Voltou a passos largos, queria gritar ao mundo liberdade, amor, coragem. Na porta de casa ouviu o primeiro pássaro da manhã. Parecia um sabiá. Riu consigo e entrou. Queria mudar o mundo, mas sabia que não o podia sozinho. Então:

- Alô, Cari?

 



Escrito por Savio às 21h52
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Frustração

Para os que se importam:

Nos últimos meses, um misto de preguiça e trabalho (estudo) tem me tomado quase a totalidade do tempo. A faculdade está tirando o meu couro, mas é parte da vida, todos estamos destinados a sofrer um pouco, não é?
Entretanto, não é por isso que estou escrevendo aqui de novo. Bem, é mais ou menos por isso. Não sei realmente se eu vou agüentar, ou até se vale suportar esse ritmo maluco que o curso impõe-nos. Na verdade não é nem o ritmo do curso que me frustra, mas a não percepção de estar aprendendo, apesar de estar fazendo o maior esforço para tal. Estou estudando como nunca e estou vendo minhas notas baixas como nunca também. Claro que colégio é uma coisa e faculdade outra, mas o processo de aprendizagem é o mesmo. Ou pelo menos eu achava assim.
Será que os outros valem tanto a pena assim? Afinal, esse é o objetivo do meu esforço, ou pelo menos espero que seja. Agora eu sou só indecisão. Talvez eu tenha sido indecisão já a bastante tempo, e só agora estou sentindo os efeitos disso. Talvez minha indecisão tenha me levado a um caminho que não seja realmente meu, mas que eu vou ter que trilhar para descobrir. Claro que nesse caminho há pessoas maravilhosas que fazem-no valer a pena, mas, no geral, estou desanimado (só um pouco).
Muitos vão pensar que eu estou sendo "bundão" ao ficar chorando sobre notas baixas para o resto do mundo (como se mais que cinco pessoas lessem isso), mas as notas são um reflexo de um esforço que não está sendo recompensado. Acho cada vez mais que estou lutando contra mim mesmo, enfiando coisas na cabeça que eu gostaria de saber, mas que minha cabeça recusa-se a gravar.
Fora isso, o resto do mundo me diz como é ruim fazer o que eu faço. Como é dificil chegar ao fim do curso com ética e depois se estabelecer no mercado de trabalho, só para ganhar uma merreca após trabalhar desumanas horas. Dizem que é muito fácil sucumbir às drogas, que deveriam ajudar aos doentes, que prejudicam os que tratam deles. Dizem que a gente perde a vida estudando, que é loucura. Que o trabalho é sofrimento e os que o fizeram antes de mim desistiram por ameaça de loucura.
Eu me pergunto o que os que se candidatam a esta vida pensam ao investir suas vidas nisso. Eu nunca pensei nada, só fiz. Sou burro demais, medroso demais, deveria ter pensado antes. Está tudo errado e eu estou suportando um elefante com palitos de fósforo. Pelo menos talvez a queda não seja tão vergonhosa porque eu já a espero.

Cansei.

Que merda, tudo isso por causa de um 5,2.

Escrito por Savio às 23h36
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Incerteza

  Hoje estava em um seminário e um dos palestrantes falou algo que me levou a pensar sobre a incerteza, acho que foi algo sobre Sócrates ou Aristóteles, não lembro bem. O importante é que me pôs a pensar sobre esse assunto. Enquanto ele expunha seus argumentos(sobre a ética numa visão histórica), eu divagava pelo assunto. Uma conclusão que me parece bastante correta e relevante é a de que, quando crianças, somos só certezas.

    Nós nascemos geralmente rodeados de um mundo aparentemente imenso, onde nossos pais são super qualquer coisa, mesmo nas menores ações. Ao tirar um carro de um atoleiro, um pai se torna um capitão de um exército infindável, capaz de vencer qualquer obstáculo. Eles podem chegar à todos os lugares e sabem de tudo o que se pode perguntar. Dentro dessa realidade criamos certezas, principalmente na parte da relação com nossos pais. Sua índole é perfeita, seus poderes são ilimitados, sua mão é de concreto (ah, lembranças das chineladas...), tudo talvez porque olhamos de baixo para cima (no sentido mais amplo da expressão).

 Com o passar do tempo, aprendemos, via escola ou experiências, a pensar que não existem certezas absolutas, vide as funções matemáticas que tanto massacram nosso cérebro no ensino básico. Logo, nossos pais já não são tão imensos assim. Continuam grandes, mas agora são tangíveis. Depois aprendemos que nem as certezas, mesmo não sendo absolutas, podem ser certezas. São hipóteses, boas hipóteses, mas apenas hipóteses. Nossos pais tornam-se homens, como nós. Já não temos tanta certeza (se é que ainda temos alguma), tanto neles quanto em nós mesmos. Após isso, pelo menos para mim, está a incerteza, afinal eu só tenho 20 anos e não sei lidar muito bem com minhas próprias incertezas.

  Talvez seja isso que os mais velhos têm a mais. Pois já dizia o filósofo: "...só sei que nada sei..." ; deveria ser um velho. Um velho, com toda a sua experiência, já teve boa parte de sua arrogância e prepotência extirpada de si pela vida, restando-lhe a consciência de sua finitude, tanto no campo temporal e físico quanto no psíquico e cognitívo. Trocando em miúdos: ele aprendeu, através de muitas bordoadas no lombo, que num é porra niuma. Esse conhecimento é muito importante, mas só é útil se internalizado, porque "da boca para fora" todos nós sabemos dele. Os velhos, pelos seus calos,  praticam esse conhecimento e chegam à sabedoria, sabem ver suas limitações e agir de acordo com elas. Sabem ser pacientes nos momentos devidos e duros ou flexíveis nos momentos adequados. Aprenderam que a vida tem mais incertezas do que tudo e que isso não significa o fim do mundo, mas um estímulo à continuação deste. Afinal, somos curiosos por natureza, apesar de o filósofo (aquele do seminário) ter falado que não temos natureza, e sim cultura, mas aí são outros quinhentos... 


"Só sei que nada sei"
Sócrates - (470-399 a.C)

 



Escrito por Savio às 23h32
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Sim

  No mar de informações inúteis, sites pornográficos e merda em geral em que se tornou a internet, algumas belas iniciativas aparecem e, por isso, devem ser apreciadas.

  O site de Gabriela Prado Maia Ribeiro, uma estudante que foi assassinada no metro do Rio de Janeiro, mais que um grito de desespero e tristeza diante da realidade brutal que nos é apresentada a cada dia, ultrapassa a mediocridade e transforma essa dor em força, ao elaborar uma mudança extremamente válida no código penal.

  Dessa iniciativa extremamente bela é possível extrair uma grande lição: não somos uma massa inerte, que só consegue assistir à relidade através dos Jornais Nacionais e ficar "chocados" somente durante o tempo da notícia, para rir no segundo seguinte com a Zorra Total que é a televisão. Temos o poder de transformar tudo, apesar de o mundo dizer-nos o contrário a cada segundo. O sentimento de derrota diante do gigantismo do sistema é algo que, apesar de forte, não é impossível de ser superado. Precisamos, cada vez mais, lutar pelo certo e permanecer inquietos, não só incomodados com as coisas erradas que acontecem.

    Espero que a perda dessa vida não seja lembrada apenas pela tragicidade do fato, mas pela esperança e força que ela pode despertar em nós. Que esse martir não seja apenas pela tentativa de mudar uma lei, mas que seja inspiração a lutar pelo que é certo e bom.


"Lutei pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo."
Olga Benário Prestes



Escrito por Savio às 20h12
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Uma questão de fé...

  O homem, o ápice da evolução, separado de todas as outras espécies por algo único do ser humano: a fé. Pensou que eu ia dizer a inteligência? Inteligência até um cachorro "vira-lata" tem. É só vc ir com um taco de madeira para cima dele que vc vai ver o quão ele pode relacionar mané + taco = briga. Isso é inteligência. Alguns podem argumentar que o que nos separa é a razão, mas a razão é algo tão relacionada com a inteligência que dá margem a discussões bizantinas. A fé não. Ela é só nossa. Obrigado mãe natureza.
  A fé, apesar de não parecer, está tão ligada com a razão quanto com a emoção. A emoção é obviamente a face mais evidente da fé, mas por trás dela existe toda uma dialética na qual se emprega muita razão, afinal, cordenar e organizar frases aparentemente sem relação entre si para mostrar uma "verdade", mesmo que falsa, requer um pouco de inteligência e razão. A fé é tão racional que já se tornou um curso superior: a teologia, que é ministrada em diversas faculdades mundo a fora. Santo Agustinho, Martinho Lutero e outros desenvolveram livros e códigos de conduta baseados na sua fé em algo (Deus, no caso). A fé, como meus pais dizem, é exremamente racional. Eles dizem que Jesus foi o homem mais inteligente de toda a história. Bem, eu não duvido nem concordo. Ele conseguiu passar uma mensagem extremamente simples, mas de uma profundidade gigantesca: "... Ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo...". Digno de um prêmio Nobel.
  A fé requer tanto um raciocínio altamente desenvolvido quanto um lado emocional intenso, mistura essa que somente o ser humano possui. A fé, ao meu ver, situa-se na intersecção destas duas características, por isso tem esse caráter "mágico", capaz de mover multidões consciêntes do que estão apoiando.

Uma pequena observação: Fé é diferente de esperança. Fé é: acreditar naquilo que não é como se já fosse. Esperança é: acreditar que aquilo que não é vai ser.


  A fé é tão entranhada na nossa vida que nem percebemos. Desde cedo aprendemos a ter fé em nossos pais, e quanto mais novos somos, mais fé temos neles, apesar de não termos consciência dela. Militantes ardorosos de causas políticas ou humanitárias têm fé nos princípios "pregados" a eles. A fé não está circunscrita somente a religião, como muitos podem pensar.
  Como o amor, a fé é sublime enquanto dura. Move montanhas, não conhece o "nunca" nem o "proibido", é incansável e insaciável, quase divina. Talvez o problema do mundo atual é que nosso racionalismo aleijou a fé, relegando-a à coadjuvante da religião. Logo, nesse mundo sem fé, as pessoas não se mobilizam para objetivos maiores, pois são aparentemente impossíveis diante da visão estritamente racionalista vigente. Talvez possa parecer meio hippie, mas realmente precisamos de mais paz, amor e fé para um mundo melhor. 
 



Escrito por Savio às 22h29
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Ócio

  Caso vocês não tenham notado, eu não atualizei o blog semana passada *gritos sarcásticos de espanto* devido, principalmente, ao ócio. E, após um pedido não muito insistente de uma leitora, consegui vencer a inércia que tem me impedido de digitar minhas deliberações filosóficas sobre os assuntos mais profundos e intangíveis da "psiquê"  humana (hoje estou comédia pra p****, neh?).
  Pensando mais seriamente no ócio e seus momentos históricos, percebo que o ócio é uma coisa boa. "Como uma coisa boa?" alguns podem pensar. Ora, por que será que todos anseiam por férias, ahn? Tudo bem, essa foi uma explicação fraca, deixem-me pensar em algo.........pronto, já sei.
  Uma amiga minha estava recebendo uma estrangeira num programa de intercâmbio e eu, visitando ela, terminei por conhecer a dita cuja. Ela, como toda turista, estava maravilhada, extasiada e encantada com o Brasil, mas, principalmente, impressionada com a nossa capacidade de dormir até as altas horas da manhã (ou da tarde) sem estar em coma alcóolico ou acordado por mais de 24 horas. Claro que fatores ambientais contribuem para que nós durmamos mais, mas a cultura brasileira assimilou o ócio com uma eficiência incomparável. Domingos à tarde aqui significam afundar no sofá e assistir faustão (ou similares) para 99% da população, quando não estão simplesmente dormindo em qualquer canto. Tarefas que têm meses de prazo são quase sempre completadas fora dele, mesmo quando há tempo útil para fazê-las. Atender a porta ou o telefone são tarefas super-humanas uma vez que se senta em um sofá ou se deita na cama. Poderia ficar dando exemplos o dia todo, mas tô com preguiça (hehe).
  Entretanto, o ócio, no momento certo, pode ser bom. Aquela preguiça em levantar pela manhã pode render uma maior intimadade com o/a parceiro/a de cama, colaborando para a consolidação do relacionamento. Grandes idéias surgem nos momentos mais inesperados; qual o momento mais inesperado do que quando se está "descansando"? A prática do ócio diminui o estresse, que tem vários efeitos benéficos na prevenção de doenças circulatórias, cardíacas e de diversos outros tipos. Enfim, ócio, com moderação, faz bem. Tem um tio meu que tem uma sala no escritório dele na qual tem um colchão pra ele dormir depois do almoço. O cara nunca pegou mais que um resfriado e parece ser uns 10 anos mais novo. Sou fã dele!
  Portando, pratiquem o ócio, mas com criatividade. Se for pra se esparramar em qualque cadeira, que seja uma com vista para o mar. Se for pra dormir numa cama qualquer, que seja uma das Casas Bahia, se for pra enrolar um trabalho crucial, procure uma atividade inútil, mas que lhe forneça uma boa desculpa para o iminente atraso. E viva o Brasil, o país do "jeitinho", da "esperteza" e do "ócio"!!



Escrito por Savio às 16h20
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Minha greve...

  Bem, para os que não me conhecem (quase todos no planeta), eu sou univesitário. Isto significa festas com bebedeiras homéricas, muito estudo (hahaha!!) e greves. Sobre as greves, acho que deviam fazer parte do currículo do estudante das universidades públicas, assim como as matérias básicas. Todos estão fadados a presenciar ou tomar parte em uma greve em um dado momento de sua jornada no ensino superior. Eu não sou exceção. A minha faculdade entrou em greve estudantil pelos motivos que a maioria já está cansada de saber: sucateamento da estrutura física, descaso com o corpo docente e outros motivos específicos que não devem interessar à maioria dos 3 leitores disso daqui. E, apesar de parecer estranho para uma grande maioria, estou indo para a faculdade quase todos os dias, o que - mais incrível ainda - é bem legal. Fora a parte de integração com os outros estudantes de semestres e até cursos diferentes, estou finalmente conhecendo a faculdade, nos mais diferentes aspectos.

  A greve tem ensinado-me muita coisa, muitas das quais não se aprendem na escola ou na faculdade. O fato de ter que correr atrás das coisas, de receber um não e ter que procurar uma outra solução, de ter que se relacionar com muita gente (algo especialmente difícil para mim), tudo isso eu não tinha experimentado. Sou fruto de escolas particulares, um "playboyzinho", como podem achar. Mas acho que experimentar isso agora, com o conhecimento e a maturidade que eu tenho (apesar de não serem suficientes, afinal nunca são), está possibilitando a mim ver essa greve não somente como uma forma de protesto, mas como uma maneira de me integrar em algo que várias pessoas compartilham e estão dispostas a gastar seu tempo e esforço. Sei que, independente do resultado, a experiência terá sido válida, pois a ajuda que eu puder dar realmente terá significado para alguém e poderá mudar algo no mundo, talvez até fazer parte de algum livro de história, daqueles que eu lia até pouco tempo e via como algo tão distante e intangível para mim.

  Vim para a universidade pública também por causa das suas greves, apesar de só ter descoberto isso agora. Escolhi-a por sua efervecência cultural e política, afinal o homem é naturalmente político. Optei por ela baseado em um sentimento, mas com a experiência e a razão vejo que essa sensação não poderia estar mais certa. A universidade não é somente a casa do saber, como sua definição acadêmica diz. É também a casa do ser, onde, antes de formarem profissionais, formam seres humanos. É aonde podemos fazer acontecer em vez de só assistir inerte através da televisão e dos jornais.

  Mesmo sem entrar nos méritos da greve, vivas a ela e viva a nós que fazemos ela!


Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis"
 
Bertold Brecht



Escrito por Savio às 19h27
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Meninos invisíveis

  Esse São João eu fui para a casa dos meus avós paternos. Além da festa de junina era aniversário de 50 anos de um tio meu, então matou-se dois coelhos com uma só cajadada. Festinha legal, familia reunida (não sei porque tem gente que não gosta dos parentes, mas isso é assunto pra outro post)e depois eu fui com um pessoal para um forró numa vila adjacente à cidade em que eu estava. Primeira vez que eu vou para uma, já que nunca tive muita vontade de ir pra essas festas. Chegando lá, a imagem q eu tinha de forró foi completamente desfeita: apenas mais um show, com direito até a pagode no intervalo, intervalo esse extremamente cômico. Parece que ligaram um botão nas pessoas, porque elas começaram a dançar automaticamente após a música começar, TODAS elas. Tinha que ver para crêr.
  Bem, o tempo passa e após umas tentativas frustradas de dançar eu saio da pista e fico conversando com o pessoal que, lógicamente, está bebendo. Vão-se algumas garrafas e latinhas, estas descartadas no chão, e aparece um menino com um saco plástico para recolhê-las. A princípio, nada mais natural, é algo que se vê em qualquer show, eles recolhem as latinhas (exceto as de coca cola, que são de matérial diferente) e depois vendem para os centros de reciclagem. Ele veio, pegou as latinhas no chão e olhou pra mim, esperando que eu lhe desse a que eu estava tomando. Como não tinha terminado, mandei ele esperar, e ele saiu a catar mais latinhas. De repente, o absurdo da situação, tão evidente, mas invisível ao mesmo tempo, bateu na minha cara: era um menino, provavelmente 10 anos, às 3 horas da madrugada catando latinhas pelo chão e nas latas de lixo das barracas. Uma criança, de bermuda, num frio desgraçado, tendo de catar latinhas e, apesar disto, invisível à todos a minha volta. Isso tirou toda a minha alegria de estar ali e de repente só existia a realidade injusta do garoto, que provavelmente não tem a mínima condição de ter uma infância normal, muito provavelmente tendo que trabalhar na lavoura da sua fazendinha, isso se a tiver. O pessoal com quem eu estava então resolveu ir embora e eu, de latinha na mão, estava procurando o menino para entregar a latinha para ele. Finalmente ele volta e pega a lata. Enquanto eu vou embora, eu vejo ele parado em frente a uma barraca, daquelas que vendem comida e bebida, não sei se pedindo por latinhas ou por comida.
  Enquanto eu estou aqui, a digitar minha revolta e compartilhar minha impotência, ele continua a buscar latinhas. Dedico este espaço aos milhares de meninos invisíveis, que graças a nossa hipocrisia e ociosidade, continuam a perambular nos cruzamentos, lixões, viadutos e outros lugares que são próprios a tantos outros, mas não à crianças. Seu grito surdo é o meu também e, se vocês, por serem invisíveis, não podem protestar contra essa injustiça, que nós, que temos acesso a educação, saúde e informação, que somos visíveis, gritemos por vocês e lutemos contra esse manto injusto e cruel que assola tantos de nós.


 "Art 4° - É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Art 5° - Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais."

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

LEI N° 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990.



Escrito por Savio às 18h40
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Razões...

   Agora que eu já registrei esse blog, estou pensando: para que servem os diários? Alguma carência emocional, uma tentativa de masoquismo psicológico? Afinal, um diário é um espaço secreto e exclusivo do seu escritor, que ali deposita o seu íntimo e espera (mesmo que inconsciente) a sua descoberta. Ou será o diário uma tentativa de guardar a vida num papel para poder saboreá-la anos mais tarde, quando já não faz mais nenhuma diferença as informações alí contidas? Não sei. A única coisa que sei é que o diário, assim como fotos, cartas, vídeos e outros, são meios de sentir saudade.
   E como gostamos de sentí-la. Eu, pelo menos, gosto. É quase como sentir um abraço suave, daqueles que deveriam ser eternos, mas que são fugazes e fugidios, que aquecem e fazem sorrir por nada. Talvez por falta de experiência de vida, eu considero a saudade como um sorriso bobo e íntimo, daqueles que ninguém entende, as vezes nem eu. Eu quero que a minha saudade continue assim: sorridente, manhosa, criança, apesar de saber que a saudade é muito mais lágrimas que sorrisos.
   Agora (agora, no momento da escrita) percebo que a saudade é um atestado de crescimento. Por mais óbvio que possa soar, crianças não sentem saudade, e crianças são mais emotivas que tudo. Velhos, entretanto, são mestres em sentir saudade. Nada mais lógico do que sentar numa varanda e olhar o tempo passar, não? Avôs e avós, ansiosos por conversar com seus netinhos e lhes contar suas aventuras da mocidade. Quem nunca ouviu um "Ah, meu filho, no meu tempo..."?
   Saudades, por isso mantemos diários. Vivemos para sentir saudades, porque sentir saudades é viver. Nada mais paradoxal e óbvio que um sentimento humano.


   Apesar de acreditar em tudo o que falei no texto acima, eu, como homem falho que sou, farei justamente o que condeno, e torturar-me-ei esperando que alguém descubra este canto escuro do mundo que sou.

"...Isn't it ironic, don't you think?... a little too ironic, and I really do think..."
Alanis Morissette



Escrito por Savio às 15h01
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